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Rodrigo e o Mapa de Si Mesmo

São Mateus, Bahia, Japão. No cancioneiro de Rodrigo Campos, a geografia cumpre um outro papel, como uma espécie de mapa imaginário que dá sempre no mesmo lugar, com variações de camadas, formas e cores. Esse lugar comum poderia ser o bairro São Mateus, na periferia de São Paulo, como ouvimos em seu primeiro álbum São Mateus Não é Um Lugar Assim Tão Longe (2009), no entanto, em seu segundo álbum, Bahia Fantástica (2012), ficamos em dúvida quanto a uma residência fixa, Rodrigo nos leva à uma nova terra, deslocada do tempo e espaço. Ao contrário de seu primeiro álbum, o próprio quintal deixa de ser o tema central e nos deparamos com uma Bahia imagética, que visita de certa maneira Carybé, Caymmi e Jorge Amado, autores que também inventaram as suas próprias Bahias, mas diferente dos artistas baianos, Rodrigo não recorre a elementos documentais nem à vivência geográfica para construir sua obra, ele segue um mapa abstrato e subjetivo que investiga impressões e memórias não vividas.

Desde o primeiro disco em que o autor afirma que São Mateus não é um lugar assim tão longe, começa a trabalhar essa nova noção de espaço. Rodrigo gravou o álbum enquanto já não morava mais no bairro suburbano, sua São Mateus é nostálgica e aparece como um acerto de contas, como o estancar do sangue ou o cicatrizar das feridas. São Mateus passou a não ser tão longe assim porque morava dentro de seu corpo. Seu comportamento, seus gestos, sua ética, estavam estreitamente ligados ao seu bairro. E pra quem mora em São Mateus, longe é o resto do mundo, não São Mateus. Com esse exercício de se afastar para se aproximar, Rodrigo começa a desconstruir a própria noção espacial. Depois de reinventar pra si a sua própria Bahia, o compositor nos leva em seu novo disco, Conversas com Toshiro (2015), para um Japão que também não é assim tão longe.

Qual é o Japão de Rodrigo? O Japão da imagem. O Japão cinematográfico aos olhos ocidentais. Agora, personagens como Ana, Andresa, Dininho Cruz, Jardir e o Zé dão lugar lugar a Ozu, Takeshi, Wong Kar-Wai, Toshiro, Chihiro, nomes que nos levam aos sígnos do cinema asiáticos.

Toshiro Vingança nos remete a um Hentai bestial, no qual a personagem entra em uma espécie de transe/mutação erótica anti-social: “Por cima figura estranha, um bicho mulher-aranha, mordeu na mulher as ancas, fluiu liquido laranja, (…) sentiu uma dor avante, seu pênis cuspiu um troço”. Hentai em japonês significa ‘anormal’ e é ligado a tara e a perversão, mas sem conotação doentia. Toshiro ao despir-se “num só levante, num puta frio em São Paulo”, nos leva à dignidade humana nas grandes cidades através do erotismo. O sexo como retorno ancestral e animalesco à natureza.

Toshiro reaparece em outra faixa, Toshiro Reverso, envolto de conteúdo onírico, próximo às animações de Hayao Miyazaki. É impossível não imaginarmos o ator Toshiro Mifune, que encarnou no cinema samurais grotescos, brutos e extremamente carismáticos, atuando nessas canções. Rodrigo usa Mifune como ator, como Akira Kurosawa fez tantas vezes. Inaugura-se uma nova categoria de personagens cancionais. Na medida em que é escolhido um ator como personagem de uma canção, ela pode encarnar múltiplas facetas. O mesmo ocorre quando Rodrigo evoca cineastas em faixas como Abraço de Ozu (Ozu Yasujiro), Takeshi e Asayo (Takeshi Kitano) e Wong Kar-Wai. As referências do Japão de Rodrigo são pop. Através do cinema, o autor tece uma colcha de retalhos e monta o seu mosaico, um processo muito parecido ao de Quentin Tarantino, como se sampleasse e reprocessasse cenas que seus olhos absorveram frente às telas. E isso não se limita ao cinema asiático, se amplia diante de tudo que Rodrigo assistiu, nos filmes e na vida.

Katsumi e Dois Sozinhos, esta última com letra de Nuno Ramos, apresentam uma espécie de erotismo lúdico, suas imagens nos remetem às gravuras japonesas Ukio-e (retratos do mundo flutuante) do período Edo. As duas canções se debruçam em imagens poéticas: “Katsumi é tão linda quanto borboleta, tão linda e dispersa feito borboleta, inda tem na virilha uma borboleta, Katsumi não tem pelos pubianos, já tem incompletos dezoito anos, (…) a questão é que tem uma borboleta, tattoo na virilha uma borboleta, voando tranquilo uma borboleta” (Katsumi); “Deixa eu gozar, tua mão é meu cão de caça, (…) minha carne é pra tua faca, só eu sei tua cor por dentro” (Dois Sozinhos).

Funatsu parece ter saído dos filmes de Nagisa Oshima ou Shohei Imamura, ao mesmo tempo que é o “rei covarde”, desafia a humanidade “nas telhas, chutando as cancelas, das casas das velhas, da antiga cidade”, com angústia: “metade de um homem, de um bicho, de algo encarnado”, deboche: “albino da tromba amarela, cabeça vermelha, jorrando confete” e tabu: “comendo um menino de segunda à tarde”.

O samba Chihiro parece aproximar musicalmente os dois primeiros trabalhos de Rodrigo. São Mateus (origem) e Bahia (ruptura) entram em confluência. Outro samba, Mar do Japão, leva às últimas consequências a abstração poética/geográfica, afirmando o que segundo Rodrigo habita nesse mar: ‘água doce’, ‘pedra inteira’, ‘peixe morto’, ‘carro antigo’, ‘vidro’, ‘estrela’. Esse mar poderia ser o da Bahia, ou poderia existir em São Mateus.

Ao inventar novamente uma geografia pessoal, nos convencemos que Rodrigo Campos é um nômade em plena São Paulo, cidade cosmopolita que pode ser todos os lugares ou lugar nenhum. Rodrigo habita apenas seu próprio corpo e mapeia o mundo a partir das experiências humanas de suas personagens.

Kiko Dinucci

 

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DISCOS


Conversas com Toshiro – 2015

 

 

São Mateus não é um lugar assim tão longe – 2009

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Toshiro

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Curta! Música – Rodrigo Campos


Uia Tv – Rodrigo Campos – Conversas com Toshiro


Rodrigo Campos – Show Bahia Fantástica


Rodrigo Campos – Bahia Fantástica – Parte 1 (doc)


Rodrigo Campos e Criolo “Ribeirão”


Pelas Tabelas – Kiko Dinucci & Rodrigo Campos (parte 01)


Pelas Tabelas – Kiko Dinucci e Rodrigo Campos (parte02)

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